sábado, 24 de janeiro de 2015

Fomos, e não voltámos.

Todos os dias me deito e me aconchego em ti. Pegas-me na mão, ajeitas-me o cabelo e puxas-me para ti. E juntos sonhamos com um futuro que nos escapou por entre os dedos. Sonhos de curar o coração, como só nós sabemos. Sonhos que nos levam ao outro lado do mundo, sem nunca sairmos do mesmo sítio. Sonhos que nos levam de volta aos piqueniques no parque, às tardes na praia e às conversas de madrugada. Sonhos que nos levam e, por algum razão, não nos trazem de volta. Não nos trouxeram ontem, nem anteontem, nem no dia antes desse... Simplesmente fomos e não voltámos.
E, quando acordo, já lá não estás. Inspiro e sei que é só mais um dia. Mais um dia sem ti, mais um dia sem as nossas piadas e a nossa cumplicidade. "Mais um dia, só mais um dia", digo para mim todas as manhãs.
Falta-me a habilidade do desamor e, por isso, é que todos os dias volto a deitar-me e a aconchegar-me em ti, a sonhar e a viajar contigo. Por muito que custe acordar e saber que não estarás lá no dia seguinte.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Um espaço virtual entre o passado e o futuro

Cruzamo-nos, todos os dias, com centenas de pessoas e, se pensarmos bem, é impossível ter uma noção minimamente razoável da quantidade de pessoas com quem nos cruzamos ao longo de uma semana, quanto mais numa vida. E é impressionante a forma como algumas nos passam despercebidas e outras, pelo contrário, fazem toda a diferença. É impressionante. Um acaso ou uma escolha, não sei. Na verdade o acaso pode fazer com que a pessoa que inconscientemente "escolhemos" para fazer parte do nosso percurso, até nem fosse a mais parecida connosco, aquela que seria de esperar se conhecessemos realmente todas as pessoas com quem nos cruzamos. Mas são essas pessoas, as que escolhemos e que nos escolhem a nós, essas que farão parte da nossa vida, da história que escrevemos todos os dias. E todas elas nos ensinam algo. Mesmo aquelas que, lentamente, deixam de fazer parte do presente para passar a fazer parte do passado.
Perdemos amigos, perdemos amores e até pessoas para as quais, por muito que nos preparemos, nunca estamos prontos. A perda é uma constante na vida do ser humano. E cabe a nós crescer e lidar com ela, seja ela uma perda mais ou menos eterna, se é que me percebem.
Nunca se esquece. Nunca esquecemos as pessoas que realmente nos marcaram. Mesmo que o final de uma amizade ou de um amor tenha sido demasiado doloroso para que quisessemos continuar a lutar por isso. Tentamos, em vão, fingir que aquela pessoa não existe. Tentamos, em vão, fazer de conta que estamos bem, que não nos afetou. Somos seres demasiado orgulhosos para admitir que não queríamos que aquilo acontecesse. E, mesmo quando não somos, mesmo quando tentamos, de nada serve se a outra pessoa não estiver disposta a deixar o orgulho de lado e aceitar que, para nós, aquilo é errado. Mesmo que para essa pessoa seja o correto.
Mas a vida é demasiado curta. O problema reside em acharmos que temos tempo para tudo. Que temos tempo para sermos felizes. Mas não temos. Ninguém sabe o tempo que tem, o que lhe resta. Por isso, e só por isso - o que já me parece uma razão bastante boa, acredito que se algo nos faz feliz devemos fazê-lo, se alguém nos faz feliz, devemos dizê-lo mas, se alguém nos faz mal, também nos devemos afastar. Se nos deixarmos pairar pelo espaço virtual entre o passado e o futuro, se não fizermos de cada dia único, tão breve não iremos alcançar o futuro que tanto desejamos. Se somos felizes, realmente felizes, porquê inibir isso? Porquê ter medo? Vale a pena arriscar. Mesmo que, no fim, a perda seja uma constante. Porque o é. Mas só vale a pena aceitar as perdas que a vida nos traz se aproveitarmos mais as "chegadas" e os "presentes". Se aproveitamos os pequenos momentos. Se aproveitarmos realmente um abraço, uma chamada, uma palavra amiga. Se não formos nós a conservar as pessoas que entram, ao acaso ou não, na nossa vida e se essas pessoas não fizerem o mesmo, se não estivermos em sintonia, continuaremos neste espaço virtual em que tudo acontece sem termos uma palavra a dizer, sem tomarmos as atitudes que deveríamos ter tomado.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Exaustão

Tens tanto dentro de ti que se torna insuportável. Tens tanto em ti que bloqueias, dia após dia, que já não consegues pensar direito. Já nada é o que era, as inevitáveis recordações insistem em aparecer, mesmo quando te tentas abstrair. Estás mais envolvida do que pensavas. Tentas, em vão, eliminar o que te vai na cabeça, o aperto que tens no peito. Mas estás demasiado envolvida. Acordas, todos os dias, determinada e, no fim do dia, acabas por ir dormir sem sequer pensar no que deixaste por fazer porque te cansaste. Cansaste-te de tentar ficar, cansaste-te de tentar ir embora. Vais dormir porque toda esta situação te deixa exausta. És forte, és uma lutadora, és competitiva e já nem isso te serve. Acreditas em ti mas acabas por te deixar levar pela exaustão. Lutas contra as tuas próprias vontades e até essa luta te cansa. É todos os dias a mesma coisa. As memórias, os pedaços de papel, as expressões que adquiriste. Estás demasiado envolvida. Não tens medo de ter saudades, mas estás cansada delas. Não tens medo da dor, mas cansaste-te de sofrer pelo que não irá mudar. Não tens medo de que seja real, mas estás cansada da realidade. Já não tens medo de nada, só queres que tudo acabe, que tudo mude, que tudo volte ao que era mesmo antes de o ser.
Deste-te demais, envolveste-te demais.
A verdade é que tudo tem um preço, sempre ouviste dizer. Nunca acreditaste, mas agora sabes que é assim. E tu envolveste-te demais.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O melhor local para falar com a Lua

Houve uma altura em que percorri caminhos mas, nos últimos tempos, optei pela construção de casas, ou melhor, de uma em especial. Era bonita. Tinha defeitos claro, mas digamos que, não sendo construtora civil, dificilmente seria perfeita. Mas foi-se construindo. Primeiro a medo e depois com verdadeira vontade e, com o tempo, tornou-se perfeita à sua maneira. Abrigava carinho e amor lá dentro. Tinha surpresas espalhadas e escondidas nos buraquinhos mais pequeninos, aqueles que mais ninguém via, e era cheia de cor, especialmente nas noites em que deixávamos entrar a luz da Lua e ficávamos por lá, nas nossas conversas intermináveis.
Trabalhei com afinco e dedicação.
Houve muitas alturas em que me apeteceu baixar os braços, admito. Sentia-me cansada e achava que já não tinha mais forças, mas nunca desisti (tu sabes que não desisto daquilo em que acredito). Acho que, no fundo, sabia que não estava sozinha. Talvez não estivesses lá da forma como eu estava, mas estavas sempre por perto e, ao fim do dia, apaixonava-me sempre pela forma como me olhavas e me tratavas das feridas. No fundo, cada um tinha o seu papel.
Mas houve um dia, um momento, em que tudo mudou. Falei de tempestades e de projetos e a partir daí nada foi igual. Aos poucos deixámos de construir, pelo menos da forma verdadeira como tínhamos feito até aí e, numa noite sem lua, concordámos que o melhor seria deixarmos a casa como estava.
Abandonámos temporariamente aquilo a que, um dia, chamámos nosso e, com a confusão, ainda voltámos para a visitar, mas nunca com o mesmo sorriso, nunca com o mesmo calor no coração. 
Por isso tomámos a melhor decisão: não voltar.
Tornei-me forte, criei as minhas próprias defesas e estabeleci um método. Mudei de rua e comecei a fazer um percurso diferente. Tudo corria bem até me ter cruzado contigo na rua. Perguntaste-me pela casa e eu disse-te que não tencionava voltar para a visitar. Mas menti, desculpa.
Acabei por voltar... Não uma, não duas, várias vezes.
E sabes? Já não tem surpresas escondidas pelos cantos e deixou de ter cor... É fria e chove lá dentro. As paredes do lado esquerdo ruiram, mesmo sem tempestade. Era uma casa bonita, é pena.
Não sei porque lá volto, se queres que te diga. Fico triste só de passar à porta. Tento resistir, mas acabo sempre por entrar e, assim que lá estou, tudo volta. Toda uma imensidão de sentimentos avassaladores que não consigo controlar.
Mas, na verdade, está cada vez mais vazia, mais fria... Estou a pensar em mandar demolir o que resta dela e talvez vender o terreno depois, espero que não te importes. Talvez ponha um anúncio no jornal:


"Vende-se terreno para construção, não sei quantos metros quadrados por outros tantos (expansível).
Local propício ao carinho e à cumplicidade.
Rua indefinida, o melhor local para falar com a lua"
Que dizes? 



Meios-termos

Sou do tipo de pessoa que acredita em contos de fadas, que dá segundas oportunidades e que vê sempre o lado positivo de cada situação. Sou do tipo de pessoa que gosta ou não gosta, faz ou não faz, assume ou, se não assume, não se compromete. Não sou pessoa de meio termo, meio copo ou meio amor e é por isso que, quando há pessoas ou situações que me "exigem" esse meio termo, acabo por, lentamente, afastar essas pessoas ou essas situações da minha vida. Não que seja uma decisão fácil, não sou pessoa de desistir facilmente. Sou persistente e corro atrás do que acredito. Sou exatamente aquele tipo de pessoa que faz as perguntas para as quais não quer ouvir a resposta, para assim poder tomar decisões baseadas em factos e não baseadas nas histórias que insistem em se formar na minha cabeça. E, no geral, mesmo que saia magoada, nunca me arrependo de o ter feito porque, se não formos nós a lutar por aquilo em que acreditamos, ninguém o fará por nós.

No entanto, às vezes temos de baixar os braços e virar costas, deixar o livro dos contos de fadas guardado e seguir em frente. Porque mesmo os persistentes desistem e mesmo os otimistas têm dias maus. Mas essencialmente porque uma luta só é saudável se soubermos assumir a derrota.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Talking to the moon

É no preciso momento em que te apercebes o quão alguém te magoou que tudo cai por água abaixo. É nesse preciso momento que percebes que não podias ter feito mais nada porque, apesar de tudo, deixaste o orgulho de lado e tentaste. Fizeste de tudo para que a tua história se escrevesse de maneira diferente e, ainda assim, nada mudou.
Acredito no destino, mas também acredito que nós temos uma palavra a dizer sobre a forma como escrevemos a nossa história. Por isso é que sou como sou. Por isso é que luto por aquilo em que acredito, mesmo que o destino me desafie.
Por vezes funciona, outras não. E crescemos no momento em que aceitamos que a perda é real, no momento em que aceitamos que não há mais nada a fazer pois acima de tudo, estamos nós. Crescemos quando decidimos que está na altura de seguir em frente e que a partir de agora, já só depende de nós ser feliz novamente.

Por isso, a partir de hoje, irei falar com a lua.