Houve uma
altura em que percorri caminhos mas, nos últimos tempos, optei pela
construção de casas, ou melhor, de uma em especial. Era bonita. Tinha
defeitos claro, mas digamos que, não sendo construtora civil,
dificilmente seria perfeita. Mas foi-se construindo. Primeiro a medo e depois com verdadeira vontade e, com o tempo, tornou-se perfeita à sua maneira. Abrigava carinho e
amor lá dentro. Tinha surpresas espalhadas e escondidas nos buraquinhos mais
pequeninos, aqueles que mais ninguém via, e era cheia de cor,
especialmente nas noites em que deixávamos entrar a luz da Lua e
ficávamos por lá, nas nossas conversas intermináveis.
Trabalhei com afinco e dedicação.
Houve
muitas alturas em que me apeteceu baixar os braços, admito. Sentia-me
cansada e achava que já não tinha mais forças, mas nunca desisti (tu
sabes que não desisto daquilo em que acredito). Acho que, no fundo,
sabia que não estava sozinha. Talvez não estivesses lá da forma como eu
estava, mas estavas sempre por perto e, ao fim do dia, apaixonava-me sempre
pela forma como me olhavas e me tratavas das feridas. No fundo, cada um tinha o seu papel.
Mas
houve um dia, um momento, em que tudo mudou. Falei de tempestades e de
projetos e a partir daí nada foi igual. Aos poucos deixámos de
construir, pelo menos da forma verdadeira como tínhamos feito até aí e,
numa noite sem lua, concordámos que o melhor seria deixarmos a casa como estava.
Abandonámos
temporariamente aquilo a que, um dia, chamámos nosso e, com a confusão, ainda voltámos para a
visitar, mas nunca com o mesmo sorriso, nunca com o mesmo calor no coração.
Por isso tomámos a melhor decisão: não voltar.
Tornei-me forte, criei as minhas próprias defesas e estabeleci um método. Mudei de rua e comecei a fazer um percurso diferente. Tudo corria bem até me ter cruzado contigo na rua. Perguntaste-me pela casa e eu disse-te que não tencionava voltar para a visitar. Mas menti, desculpa.
Acabei por voltar... Não uma, não duas, várias vezes.
E sabes? Já não tem surpresas escondidas pelos cantos e deixou
de ter cor... É fria e chove lá dentro. As paredes do lado esquerdo
ruiram, mesmo sem tempestade. Era uma casa bonita, é pena.
Não
sei porque lá volto, se queres que te diga. Fico triste só de passar à
porta. Tento resistir, mas acabo sempre por entrar e, assim que lá
estou, tudo volta. Toda uma imensidão de sentimentos avassaladores que não consigo controlar.
Mas, na verdade, está cada vez
mais vazia, mais fria... Estou a pensar em mandar demolir o que resta dela e talvez vender o terreno depois, espero que não te importes. Talvez ponha um anúncio no
jornal:
"Vende-se
terreno para construção, não sei quantos metros quadrados por outros
tantos (expansível).
Local propício ao carinho e à cumplicidade.
Rua
indefinida, o melhor local para falar com a lua"
Que dizes?